Sempre fui consumidora de fast fashion, desde de quando minha mãe comprava o que eu usava até a primeira peça que comprei sozinha. Me lembro da sensação fantástica de economizar o lanche, sair pra passear no centrão e voltar com umas duas blusinhas novas, que às vezes não duravam o tempo de eu enjoar delas, embora eu ainda tenha umas camisetinhas que sobreviveram (ou será que eu fiz sobreviver ?) à minha adolescência. Este é o conceito chave de fast fashion: roupa baratinha e novidades toda semana, alinhadas às tendências atuais. Alegria das creyssas, não é ?
Esse proposta de um mundo infinito da moda ao seu alcance, separada de você apenas por um crediário, é extremamente tentadora. Infelizmente, ela tem um custo, muito caro por sinal. Recentemente, a Zara foi bombardeada com a denúncia de trabalho escravo e muita gente se posicionou, postou no facebook sua indignação e prometeu boicote. Eu respirei aliviada, nem gosto da Zara mesmo, claro que tenho algumas peças de lá (nenhuma custou menos de 29,90, hehe), mas nunca gostei muito do custo benefício, achava tudo muito ruim pelo preço posto. Só que estas situações de trabalho escravo em confecções são muito mais comuns do que a gente imagina, e nas chamadas "senzalas da moda", milhares de trabalhadores brasileiros e bolivianos sub-vivem em condições desumanas: ambiente degradante, jornadas de trabalho exaustivas e cerceamento da liberdade. E não tô falando só da Zara não: infelizmente, minhas marcas favoritas, de onde tenho mais peças, a Pernambucanas e a Marisa, foram recentemente denunciadas.

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E você acha que isso acontece só nas confecções, carvoarias e construção civil ? Nananina. Eu mesma fui testemunha de situações parecidas. Um pouco antes de completar 16 anos, queria começar a trabalhar, e uma amiga minha fazia uns extras aos finais de semana numa grande rede de alimentação dessas baratinhas (não, não é o MacDonalds, mas quem me conhece sabe qual é). Ganhávamos 20 reais por dia para trabalhar das 16h até 0h, ás vezes até as 2h da manhã, numa jornada de 8-10 horas. Ok, não era eu a vítima de trabalho escravo, eu achava o máximo, ficava cansada mas me divertia e ainda pagava as prestações do meu amado cartão da C&A. Uma vez houve uma blitz do Ministério do Trabalho, e nós, os muitos menores de idade, tivemos que nos esconder em uma casa que ficava perto do restaurante, que também servia de alojamento para o pessoal que trabalhava na cozinha, vindos de outros estados, boa parte menor de idade, todos sem carteira assinada, com jornadas de 12 horas de trabalho no mínimo, que moravam ali mesmo num ambiente degradante e tinham que pedir atutorização pra tudo que faziam. Quais eram mesmo as condições que caracterizavam trabalho escravo ? Ah, essas mesmas!
Mas e aí, você que é uma pessoa antenada e politizada, se pergunta: até quando ? O que fazer para transformar esse cenário ? Minha vontade imediata e mais sincera é fazer boicote de TUDO, e não pode ser hipócrita, tem que parar de comprar tudo MESMO que utilize trabalho escravo: fast fashion, fast food, equipamentos eletrônicos, não ir mais à 25 de março, e por aí vai. Tipo ir viver no mato, andar pelado, de bicicleta e só comer comida orgânica. Ah, e tem que fazer a revolução social também, se não, não adianta nada.
Não tem jeito de não sermos hipócritas, mas não podemos fingir que não é com a gente.Com o perdão do clichê, acredito sim que nossas pequenas atitudes podem surtir transformações. Acredito na moda sustentável, em reutilizar, reduzir e reciclar. Acho que já tem muita roupa fabricada nesse mundão e que a gente pode muito bem usar muita coisa de segunda mão, vindas de brechós ou que já foram de outras pessoas - mãe, amigas, vó. Divida, empreste, doe ! Também acho que podemos nos virar muito bem com pouca roupa, tendo um pouquinho de criatividade, se não consegue boicotar tudo, se limite a comprar o necessário. Se não dá pra fazer tudo, a gente faz o que dá, e luta pra mudar o que não dá.
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